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Autenticação em dois fatores e gestão de acessos: como proteger as contas da empresa
Os tipos de 2FA do mais fraco ao mais forte, como evitar a fadiga de MFA, o que fazer com a conta compartilhada e o inventário das contas que a empresa não pode perder.
Por Equipe Locomotiva Tech ·

Em resumo
- Autenticação em dois fatores exige duas provas de tipos diferentes, como a senha (algo que você sabe) e o celular ou uma chave física (algo que você tem). Duas senhas contam como um fator só.
- Do mais fraco ao mais forte: código por SMS, aplicativo autenticador, notificação no aplicativo e chave física ou passkey. Só a última resiste a um site falso que repassa o código em tempo real.
- Notificação de login que você não pediu deve ser negada e tratada como sinal de que a senha já vazou. Aprovar para parar os avisos é exatamente o que o golpe da fadiga de MFA espera.
- Gestão de acessos começa pelo fim da conta compartilhada: login próprio para cada pessoa, com o mínimo de permissão que o trabalho pede, e roteiro de saída executado no mesmo dia.
Autenticação em dois fatores (2FA) é exigir, além da senha, uma segunda prova de identidade de outro tipo, como um código gerado no celular, uma chave física ou a biometria do aparelho. Com ela ativada, uma senha vazada deixa de bastar para entrar na conta. Para a empresa, é o controle de melhor custo contra invasão de e-mail, banco e redes sociais.
Só que 2FA numa conta que cinco pessoas usam, com o código chegando no celular de alguém que saiu da empresa em março, protege pouco. Por isso este guia trata os dois assuntos juntos: como escolher o segundo fator e como organizar quem tem acesso a quê.
O que são os fatores de autenticação
Existem três tipos de prova:
- algo que você sabe: senha, PIN, resposta a uma pergunta secreta;
- algo que você tem: o celular com o aplicativo autenticador, uma chave de segurança física, uma lista impressa de códigos;
- algo que você é: digital, rosto.
Dois fatores significa dois tipos diferentes. Senha mais pergunta secreta são duas coisas que você sabe, e quem descobriu uma pode descobrir a outra do mesmo jeito. Continua sendo um fator só.
A biometria tem um detalhe. As diretrizes de autenticação do NIST (SP 800-63B-4), referência técnica do governo dos Estados Unidos revisada em 2025, não aceitam a biometria como autenticador sozinha: ela vale junto com um objeto físico. Numa passkey, por exemplo, a sua digital não viaja para o site. Ela destrava uma chave guardada no celular, e é essa chave que prova quem você é.
Nas telas de configuração, 2FA, MFA (autenticação multifator, com dois ou mais fatores) e "verificação em duas etapas" aparecem como sinônimos. O último é o nome usado pelo CERT.br e por vários serviços.
Tipos de autenticação em dois fatores, do mais fraco ao mais forte
| Método | Como funciona | Resiste a phishing | Ponto fraco |
|---|---|---|---|
| Código por SMS ou ligação | A operadora entrega um código no número cadastrado | Não | Troca fraudulenta de chip e site falso que repassa o código |
| Aplicativo autenticador | O aplicativo gera um código de seis dígitos que muda a cada 30 segundos | Não | Site falso que pede o código e usa na hora |
| Notificação no aplicativo | O celular pergunta se é você tentando entrar | Não | Fadiga de MFA, quando basta tocar em "aprovar" |
| Chave física ou passkey | Criptografia de chave pública, presa ao endereço do site | Sim | Perder a chave sem ter uma reserva cadastrada |
"Resistir a phishing" quer dizer o seguinte: mesmo que a pessoa caia num site falso idêntico ao verdadeiro, o segundo fator não funciona lá.
Código por SMS
O código vai para a linha telefônica, não para o aparelho. No golpe da troca de chip, o criminoso consegue transferir o número da vítima para um chip dele e passa a receber os códigos. O NIST classifica o uso da rede telefônica como autenticador "restrito", e o fascículo de autenticação do CERT.br orienta a usar SMS apenas quando não houver outra opção. Mesmo assim, é melhor do que ficar só com a senha.
Aplicativo autenticador
O aplicativo autenticador usa o padrão TOTP (senha única baseada em tempo). No cadastro, o site mostra um QR code com um segredo. A partir desse segredo e do relógio, o aplicativo e o servidor calculam o mesmo código de seis dígitos, que muda a cada 30 segundos, sem depender de sinal de celular.
O limite é o phishing em tempo real: o site falso pede a senha e o código, e repassa os dois ao site verdadeiro em segundos. O NIST diz com todas as letras que autenticador cujo código é digitado à mão não conta como resistente a phishing. Ainda assim, para a maioria das contas, o aplicativo é o padrão razoável.
Notificação no aplicativo
Em vez de digitar código, o celular exibe "É você tentando entrar?" e você aprova. É prático, e é justamente essa praticidade que abre espaço para a fadiga de MFA, tratada na próxima seção. A versão mais segura pede que você digite no celular o número que aparece na tela de login, o que prova que você está diante daquela tela.
Chave física e passkey
A chave de segurança física (padrão FIDO2, conectada por USB ou aproximação) e a passkey usam criptografia de chave pública. A passkey é a mesma ideia guardada no celular ou no gerenciador de senhas e destravada com digital, rosto ou PIN. A documentação de passkeys do Google explica por que isso resiste a phishing: o navegador e o sistema só deixam a credencial funcionar no site que a criou, e o servidor guarda apenas uma chave pública, que não serve para nada se vazar.
O CERT.br aponta a chave física como a opção mais segura de verificação. O cuidado é cadastrar sempre duas: uma no chaveiro, outra guardada no cofre da empresa.
Fadiga de MFA: quando o próprio aviso vira ataque
O cenário é conhecido. A senha de um funcionário vazou em outro site. Às onze da noite, o invasor tenta entrar vinte vezes seguidas, e o celular da pessoa recebe vinte notificações. Na vigésima, ela aprova para o aparelho parar de tocar. Uma variação é o telefonema de alguém que diz ser "da TI" e avisa que vai chegar uma notificação para aprovar.
O NIST descreve exatamente esse ataque como fadiga de autenticação. Por causa dele, a revisão de 2025 deixou de aceitar a simples aprovação no aplicativo: o usuário precisa transferir um código entre as telas, e o serviço deve impor um limite razoável à quantidade de notificações enviadas.
Regras para combinar com a equipe:
- notificação que você não pediu é negada, sempre;
- quem recebeu avisa o responsável na hora, porque a notificação significa que alguém já tem a senha;
- a senha daquela conta é trocada no mesmo dia;
- ninguém de TI legítimo pede para aprovar notificação ou ditar código por telefone.
Do lado da administração, ligue a confirmação por número onde o serviço oferecer e, nas contas de administrador, prefira chave física ou passkey.
Códigos de recuperação e troca de celular
Ao ativar a 2FA, boa parte dos serviços oferece uma lista de códigos de recuperação, cada um válido uma única vez, para o dia em que o celular sumir. É a peça que mais falta na hora do aperto, porque ninguém guardou.
Onde guardar:
- impressos, num envelope no cofre ou numa gaveta trancada, com o nome da conta por fora;
- ou num cofre separado do gerenciador de senhas, acessível só a dois administradores.
O CERT.br recomenda revogar e gerar novos códigos se você perder a lista ou desconfiar que alguém a viu. Além dos códigos, cadastre um segundo fator de reserva nas contas críticas: uma segunda chave física ou um segundo aparelho.
Na troca de celular, transfira o aplicativo autenticador antes de formatar o aparelho antigo. Se o celular foi perdido ou roubado, remova-o da lista de dispositivos confiáveis de cada serviço assim que possível.
Contas compartilhadas e o princípio do menor privilégio
O problema da conta compartilhada
O e-mail do financeiro, o login do Instagram, o acesso ao banco: quatro pessoas sabem a senha. As consequências aparecem juntas. Não existe registro de quem fez o quê. A 2FA fica presa ao celular de uma pessoa só. E quando alguém sai, trocar a senha significa avisar todo mundo, então na prática ninguém troca.
Como resolver
- Login próprio para cada pessoa. A caixa do financeiro vira uma caixa compartilhada ou um grupo que cada um acessa com a própria conta.
- Recursos de usuário múltiplo que os serviços já têm. Gerenciadores de negócios das redes sociais trabalham com papéis; muitos bancos oferecem usuários operadores e aprovadores, com alçada de valor; boa parte das hospedagens permite subusuários.
- Quando o serviço realmente só aceita um login, a senha vai para um cofre compartilhado do gerenciador, o segundo fator fica num aparelho da empresa (e não no celular pessoal de alguém), a conta tem um dono nomeado e a senha é trocada sempre que sai alguém que a conhecia.
Menor privilégio
Menor privilégio é dar a cada pessoa só o acesso que o trabalho dela pede, e só enquanto pede. O estagiário de marketing entra como editor da página, não como administrador. O contador tem perfil de consulta no banco, sem poder de transferir. O vendedor enxerga a própria carteira no CRM, e não a base inteira. E o sócio usa uma conta comum no dia a dia e outra, separada, para configurar sistemas.
A cada trimestre, exporte a lista de usuários de cada sistema e compare com a lista de quem trabalha na empresa hoje. Acesso sobrando também pesa quando o assunto é LGPD em sites e sistemas, porque dado de cliente aberto a quem não precisa é risco sem contrapartida.
Inventário de contas críticas
Algumas contas, se caírem, derrubam as outras. Liste-as numa planilha, com uma linha por conta:
| Conta | Por que é crítica | O que conferir |
|---|---|---|
| E-mail corporativo (administração) | Redefine a senha de quase todo o resto | Dois administradores, chave física ou passkey, códigos de recuperação guardados |
| Domínio e DNS | Quem controla o domínio controla site e e-mail | Titular no CNPJ da empresa, contato atualizado, 2FA no painel |
| Banco e meios de pagamento | Movimenta dinheiro | Usuários nominais com alçada, aprovação por segunda pessoa |
| Redes sociais e contas de anúncio | Reputação e cartão de crédito cadastrado | Dois administradores da empresa, agência como parceira |
| Hospedagem e nuvem | Site, sistemas e backups | Conta principal fora do uso diário, usuários separados |
| Sistema de gestão e gerenciador de senhas | Dados de clientes e as demais senhas | Administradores nomeados, 2FA obrigatória para todos |
Para cada linha, anote o dono (a pessoa que responde por ela), quem mais tem acesso, qual é o segundo fator e onde estão os códigos de recuperação. O domínio costuma ser a linha com mais surpresa, como o registro feito no CPF de um ex-funcionário ou da agência antiga. O texto sobre domínio, DNS, e-mail e hospedagem mostra o que a empresa precisa ter sob controle ali.
Entrada e saída de pessoas
A gestão de acessos se sustenta em dois momentos com roteiro escrito.
Na entrada:
- criar as contas nominais a partir de um perfil por função (vendas, financeiro, operação);
- configurar a 2FA no primeiro dia, antes de liberar acesso a dados;
- incluir a pessoa só nos cofres de senha que a função pede;
- registrar no inventário tudo o que foi liberado.
Na mudança de função, retire o que pertencia à função anterior. Sem isso, quem passou por três áreas acumula o acesso de três.
Na saída, no mesmo dia:
- bloquear o login e encerrar as sessões abertas em todos os aparelhos;
- retirar a pessoa dos cofres e trocar as senhas compartilhadas que ela via;
- remover os dispositivos confiáveis e as chaves físicas cadastradas em nome dela;
- conferir se a conta criou regras de encaminhamento automático de e-mail;
- transferir os arquivos e a caixa de entrada para o gestor;
- tirar os acessos em banco, redes sociais e contas de anúncio, e recolher o equipamento.
O item 4 é o que mais passa batido: uma regra de encaminhamento continua mandando e-mails da empresa para fora meses depois da saída, sem ninguém perceber.
Por onde começar esta semana
- Monte o inventário de contas críticas, mesmo incompleto.
- Ative a 2FA com aplicativo ou chave física no e-mail e no domínio de todos os administradores.
- Gere os códigos de recuperação dessas contas e guarde-os fora do celular.
- Escolha a conta compartilhada mais sensível e troque por logins individuais.
O resto do checklist de segurança da informação para pequenas empresas segue a mesma lógica de prioridade. Nos projetos de segurança digital da Locomotiva, esse inventário vem antes de qualquer configuração, porque é ele que mostra onde um único celular perdido pararia a empresa.
Dúvidas
Perguntas frequentes
- O que é melhor: SMS ou aplicativo autenticador?
- O aplicativo autenticador. O código por SMS depende da linha telefônica, que um golpista pode transferir para outro chip, enquanto o aplicativo calcula o código no próprio aparelho, sem passar pela operadora. Ainda assim, SMS é melhor do que nenhum segundo fator quando o serviço não oferece outra opção.
- Passkey substitui a senha?
- Em muitos serviços, sim: você entra com a digital, o rosto ou o PIN do aparelho, sem digitar senha. Enquanto o serviço mantiver a senha como alternativa de login, ela continua sendo uma porta, então deixe-a longa, única e guardada no gerenciador de senhas.
- Perdi o celular com o aplicativo autenticador. E agora?
- Entre na conta com um dos códigos de recuperação que você guardou, remova o aparelho perdido da lista de dispositivos confiáveis e cadastre o novo. Sem código de recuperação, resta o processo de recuperação do próprio serviço, que pode levar dias e exigir comprovação de identidade. Por isso as contas críticas devem ter sempre um segundo fator de reserva.
- Quem deve ser administrador das contas da empresa?
- Duas pessoas de confiança da própria empresa, cada uma com login nominal. Um administrador só cria dependência; muitos ampliam o estrago de uma senha vazada. Agência, contador e TI terceirizada entram como usuários com a permissão que o trabalho pede e saem no fim do contrato.
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