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Autenticação em dois fatores e gestão de acessos: como proteger as contas da empresa

Os tipos de 2FA do mais fraco ao mais forte, como evitar a fadiga de MFA, o que fazer com a conta compartilhada e o inventário das contas que a empresa não pode perder.

Por Equipe Locomotiva Tech ·

Mão segurando um celular com a tela de login de um aplicativo, diante de luzes desfocadas.
Foto: cottonbro studio / Pexels

Em resumo

  • Autenticação em dois fatores exige duas provas de tipos diferentes, como a senha (algo que você sabe) e o celular ou uma chave física (algo que você tem). Duas senhas contam como um fator só.
  • Do mais fraco ao mais forte: código por SMS, aplicativo autenticador, notificação no aplicativo e chave física ou passkey. Só a última resiste a um site falso que repassa o código em tempo real.
  • Notificação de login que você não pediu deve ser negada e tratada como sinal de que a senha já vazou. Aprovar para parar os avisos é exatamente o que o golpe da fadiga de MFA espera.
  • Gestão de acessos começa pelo fim da conta compartilhada: login próprio para cada pessoa, com o mínimo de permissão que o trabalho pede, e roteiro de saída executado no mesmo dia.

Autenticação em dois fatores (2FA) é exigir, além da senha, uma segunda prova de identidade de outro tipo, como um código gerado no celular, uma chave física ou a biometria do aparelho. Com ela ativada, uma senha vazada deixa de bastar para entrar na conta. Para a empresa, é o controle de melhor custo contra invasão de e-mail, banco e redes sociais.

Só que 2FA numa conta que cinco pessoas usam, com o código chegando no celular de alguém que saiu da empresa em março, protege pouco. Por isso este guia trata os dois assuntos juntos: como escolher o segundo fator e como organizar quem tem acesso a quê.

O que são os fatores de autenticação

Existem três tipos de prova:

  • algo que você sabe: senha, PIN, resposta a uma pergunta secreta;
  • algo que você tem: o celular com o aplicativo autenticador, uma chave de segurança física, uma lista impressa de códigos;
  • algo que você é: digital, rosto.

Dois fatores significa dois tipos diferentes. Senha mais pergunta secreta são duas coisas que você sabe, e quem descobriu uma pode descobrir a outra do mesmo jeito. Continua sendo um fator só.

A biometria tem um detalhe. As diretrizes de autenticação do NIST (SP 800-63B-4), referência técnica do governo dos Estados Unidos revisada em 2025, não aceitam a biometria como autenticador sozinha: ela vale junto com um objeto físico. Numa passkey, por exemplo, a sua digital não viaja para o site. Ela destrava uma chave guardada no celular, e é essa chave que prova quem você é.

Nas telas de configuração, 2FA, MFA (autenticação multifator, com dois ou mais fatores) e "verificação em duas etapas" aparecem como sinônimos. O último é o nome usado pelo CERT.br e por vários serviços.

Tipos de autenticação em dois fatores, do mais fraco ao mais forte

Método Como funciona Resiste a phishing Ponto fraco
Código por SMS ou ligação A operadora entrega um código no número cadastrado Não Troca fraudulenta de chip e site falso que repassa o código
Aplicativo autenticador O aplicativo gera um código de seis dígitos que muda a cada 30 segundos Não Site falso que pede o código e usa na hora
Notificação no aplicativo O celular pergunta se é você tentando entrar Não Fadiga de MFA, quando basta tocar em "aprovar"
Chave física ou passkey Criptografia de chave pública, presa ao endereço do site Sim Perder a chave sem ter uma reserva cadastrada

"Resistir a phishing" quer dizer o seguinte: mesmo que a pessoa caia num site falso idêntico ao verdadeiro, o segundo fator não funciona lá.

Código por SMS

O código vai para a linha telefônica, não para o aparelho. No golpe da troca de chip, o criminoso consegue transferir o número da vítima para um chip dele e passa a receber os códigos. O NIST classifica o uso da rede telefônica como autenticador "restrito", e o fascículo de autenticação do CERT.br orienta a usar SMS apenas quando não houver outra opção. Mesmo assim, é melhor do que ficar só com a senha.

Aplicativo autenticador

O aplicativo autenticador usa o padrão TOTP (senha única baseada em tempo). No cadastro, o site mostra um QR code com um segredo. A partir desse segredo e do relógio, o aplicativo e o servidor calculam o mesmo código de seis dígitos, que muda a cada 30 segundos, sem depender de sinal de celular.

O limite é o phishing em tempo real: o site falso pede a senha e o código, e repassa os dois ao site verdadeiro em segundos. O NIST diz com todas as letras que autenticador cujo código é digitado à mão não conta como resistente a phishing. Ainda assim, para a maioria das contas, o aplicativo é o padrão razoável.

Notificação no aplicativo

Em vez de digitar código, o celular exibe "É você tentando entrar?" e você aprova. É prático, e é justamente essa praticidade que abre espaço para a fadiga de MFA, tratada na próxima seção. A versão mais segura pede que você digite no celular o número que aparece na tela de login, o que prova que você está diante daquela tela.

Chave física e passkey

A chave de segurança física (padrão FIDO2, conectada por USB ou aproximação) e a passkey usam criptografia de chave pública. A passkey é a mesma ideia guardada no celular ou no gerenciador de senhas e destravada com digital, rosto ou PIN. A documentação de passkeys do Google explica por que isso resiste a phishing: o navegador e o sistema só deixam a credencial funcionar no site que a criou, e o servidor guarda apenas uma chave pública, que não serve para nada se vazar.

O CERT.br aponta a chave física como a opção mais segura de verificação. O cuidado é cadastrar sempre duas: uma no chaveiro, outra guardada no cofre da empresa.

Fadiga de MFA: quando o próprio aviso vira ataque

O cenário é conhecido. A senha de um funcionário vazou em outro site. Às onze da noite, o invasor tenta entrar vinte vezes seguidas, e o celular da pessoa recebe vinte notificações. Na vigésima, ela aprova para o aparelho parar de tocar. Uma variação é o telefonema de alguém que diz ser "da TI" e avisa que vai chegar uma notificação para aprovar.

O NIST descreve exatamente esse ataque como fadiga de autenticação. Por causa dele, a revisão de 2025 deixou de aceitar a simples aprovação no aplicativo: o usuário precisa transferir um código entre as telas, e o serviço deve impor um limite razoável à quantidade de notificações enviadas.

Regras para combinar com a equipe:

  • notificação que você não pediu é negada, sempre;
  • quem recebeu avisa o responsável na hora, porque a notificação significa que alguém já tem a senha;
  • a senha daquela conta é trocada no mesmo dia;
  • ninguém de TI legítimo pede para aprovar notificação ou ditar código por telefone.

Do lado da administração, ligue a confirmação por número onde o serviço oferecer e, nas contas de administrador, prefira chave física ou passkey.

Códigos de recuperação e troca de celular

Ao ativar a 2FA, boa parte dos serviços oferece uma lista de códigos de recuperação, cada um válido uma única vez, para o dia em que o celular sumir. É a peça que mais falta na hora do aperto, porque ninguém guardou.

Onde guardar:

  • impressos, num envelope no cofre ou numa gaveta trancada, com o nome da conta por fora;
  • ou num cofre separado do gerenciador de senhas, acessível só a dois administradores.

O CERT.br recomenda revogar e gerar novos códigos se você perder a lista ou desconfiar que alguém a viu. Além dos códigos, cadastre um segundo fator de reserva nas contas críticas: uma segunda chave física ou um segundo aparelho.

Na troca de celular, transfira o aplicativo autenticador antes de formatar o aparelho antigo. Se o celular foi perdido ou roubado, remova-o da lista de dispositivos confiáveis de cada serviço assim que possível.

Contas compartilhadas e o princípio do menor privilégio

O problema da conta compartilhada

O e-mail do financeiro, o login do Instagram, o acesso ao banco: quatro pessoas sabem a senha. As consequências aparecem juntas. Não existe registro de quem fez o quê. A 2FA fica presa ao celular de uma pessoa só. E quando alguém sai, trocar a senha significa avisar todo mundo, então na prática ninguém troca.

Como resolver

  • Login próprio para cada pessoa. A caixa do financeiro vira uma caixa compartilhada ou um grupo que cada um acessa com a própria conta.
  • Recursos de usuário múltiplo que os serviços já têm. Gerenciadores de negócios das redes sociais trabalham com papéis; muitos bancos oferecem usuários operadores e aprovadores, com alçada de valor; boa parte das hospedagens permite subusuários.
  • Quando o serviço realmente só aceita um login, a senha vai para um cofre compartilhado do gerenciador, o segundo fator fica num aparelho da empresa (e não no celular pessoal de alguém), a conta tem um dono nomeado e a senha é trocada sempre que sai alguém que a conhecia.

Menor privilégio

Menor privilégio é dar a cada pessoa só o acesso que o trabalho dela pede, e só enquanto pede. O estagiário de marketing entra como editor da página, não como administrador. O contador tem perfil de consulta no banco, sem poder de transferir. O vendedor enxerga a própria carteira no CRM, e não a base inteira. E o sócio usa uma conta comum no dia a dia e outra, separada, para configurar sistemas.

A cada trimestre, exporte a lista de usuários de cada sistema e compare com a lista de quem trabalha na empresa hoje. Acesso sobrando também pesa quando o assunto é LGPD em sites e sistemas, porque dado de cliente aberto a quem não precisa é risco sem contrapartida.

Inventário de contas críticas

Algumas contas, se caírem, derrubam as outras. Liste-as numa planilha, com uma linha por conta:

Conta Por que é crítica O que conferir
E-mail corporativo (administração) Redefine a senha de quase todo o resto Dois administradores, chave física ou passkey, códigos de recuperação guardados
Domínio e DNS Quem controla o domínio controla site e e-mail Titular no CNPJ da empresa, contato atualizado, 2FA no painel
Banco e meios de pagamento Movimenta dinheiro Usuários nominais com alçada, aprovação por segunda pessoa
Redes sociais e contas de anúncio Reputação e cartão de crédito cadastrado Dois administradores da empresa, agência como parceira
Hospedagem e nuvem Site, sistemas e backups Conta principal fora do uso diário, usuários separados
Sistema de gestão e gerenciador de senhas Dados de clientes e as demais senhas Administradores nomeados, 2FA obrigatória para todos

Para cada linha, anote o dono (a pessoa que responde por ela), quem mais tem acesso, qual é o segundo fator e onde estão os códigos de recuperação. O domínio costuma ser a linha com mais surpresa, como o registro feito no CPF de um ex-funcionário ou da agência antiga. O texto sobre domínio, DNS, e-mail e hospedagem mostra o que a empresa precisa ter sob controle ali.

Entrada e saída de pessoas

A gestão de acessos se sustenta em dois momentos com roteiro escrito.

Na entrada:

  1. criar as contas nominais a partir de um perfil por função (vendas, financeiro, operação);
  2. configurar a 2FA no primeiro dia, antes de liberar acesso a dados;
  3. incluir a pessoa só nos cofres de senha que a função pede;
  4. registrar no inventário tudo o que foi liberado.

Na mudança de função, retire o que pertencia à função anterior. Sem isso, quem passou por três áreas acumula o acesso de três.

Na saída, no mesmo dia:

  1. bloquear o login e encerrar as sessões abertas em todos os aparelhos;
  2. retirar a pessoa dos cofres e trocar as senhas compartilhadas que ela via;
  3. remover os dispositivos confiáveis e as chaves físicas cadastradas em nome dela;
  4. conferir se a conta criou regras de encaminhamento automático de e-mail;
  5. transferir os arquivos e a caixa de entrada para o gestor;
  6. tirar os acessos em banco, redes sociais e contas de anúncio, e recolher o equipamento.

O item 4 é o que mais passa batido: uma regra de encaminhamento continua mandando e-mails da empresa para fora meses depois da saída, sem ninguém perceber.

Por onde começar esta semana

  1. Monte o inventário de contas críticas, mesmo incompleto.
  2. Ative a 2FA com aplicativo ou chave física no e-mail e no domínio de todos os administradores.
  3. Gere os códigos de recuperação dessas contas e guarde-os fora do celular.
  4. Escolha a conta compartilhada mais sensível e troque por logins individuais.

O resto do checklist de segurança da informação para pequenas empresas segue a mesma lógica de prioridade. Nos projetos de segurança digital da Locomotiva, esse inventário vem antes de qualquer configuração, porque é ele que mostra onde um único celular perdido pararia a empresa.

Dúvidas

Perguntas frequentes

O que é melhor: SMS ou aplicativo autenticador?
O aplicativo autenticador. O código por SMS depende da linha telefônica, que um golpista pode transferir para outro chip, enquanto o aplicativo calcula o código no próprio aparelho, sem passar pela operadora. Ainda assim, SMS é melhor do que nenhum segundo fator quando o serviço não oferece outra opção.
Passkey substitui a senha?
Em muitos serviços, sim: você entra com a digital, o rosto ou o PIN do aparelho, sem digitar senha. Enquanto o serviço mantiver a senha como alternativa de login, ela continua sendo uma porta, então deixe-a longa, única e guardada no gerenciador de senhas.
Perdi o celular com o aplicativo autenticador. E agora?
Entre na conta com um dos códigos de recuperação que você guardou, remova o aparelho perdido da lista de dispositivos confiáveis e cadastre o novo. Sem código de recuperação, resta o processo de recuperação do próprio serviço, que pode levar dias e exigir comprovação de identidade. Por isso as contas críticas devem ter sempre um segundo fator de reserva.
Quem deve ser administrador das contas da empresa?
Duas pessoas de confiança da própria empresa, cada uma com login nominal. Um administrador só cria dependência; muitos ampliam o estrago de uma senha vazada. Agência, contador e TI terceirizada entram como usuários com a permissão que o trabalho pede e saem no fim do contrato.

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